domingo, 28 de dezembro de 2014

POEMA EM BLUE


POEMA EM BLUE

Vou sendo a lua de março
cantada por Langston Hughes.
Vou sendo a noite que trouxe
uma asa quebrada
ao terreno baldio.
Vou sendo o ritmo de jazz
que vem das entranhas do mundo
para as foices de algodão.
Vou sendo este negro que tenho
em meu punho de rosas
e pregos descidos da cruz.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

REPETIÇÕES DE UM DOMINGO



REPETIÇÕES DE UM DOMINGO


Varre, vento, comigo
o lixaral da semana.
O domingo vestiu-se
de nuvens e caramelos.
Vassouras de linho puro
removem perdas e danos.
De caxemira inglesa
meu pai sai para a missa.
E eu à janela
esperando crescer.


domingo, 7 de dezembro de 2014

ESCADAS



ESCADAS



Umas levam ao coração das flores,
outras a quartos vazios,
paredes convexas,
aldebarãs silenciosas.
Entre caves e torres,
elas sobem e descem
pesadas ou leves,
desde que perdemos as asas
numa luta esquecida.


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

GRAVAMES



GRAVAMES



Pesa-me a noite que trago
numa dobra dos joelhos.
Pesa-me a corcova açoitada
por chicotes de barro.
Pesa-me a rua seu peso tardo
em meus passos tardios.
Pesa-me o sol por coroa
e a casa, por sepultura.


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

INSIGHT



INSIGHT


Audíveis silêncios
podem estar vindo das rochas
ou dos cristais que fizeram
os primeiros gritos do vento.
Enredados no branco das pétalas
que ardem no aroma dos jasmineiros,
são estes também os silêncios
ainda não revelados.
A menos quando passam
pelos filtros lilases do sangue
que nos tinge a palavra.




sábado, 22 de novembro de 2014

Os momentos supremos

Os momentos supremos
Jorge Tufic
Nós somos definitivamente autores, consagrados ou não, de uma única obra. Não era sem razão, portanto, que os nossos bisonhos predecessores achavam que Aníbal Teófilo, autor de A Cegonha, já podia morrer depois deste soneto. Fato semelhante acontecera a Júlio Salusse, autor de um outro artefato poético do gênero, intitulado Os Cisnes. E o que seria A Comédia Humana, de Balzac, senão uma grande obra reunindo, numa única saga romanesca, toda a produção literária do famoso estilista de Chat-qui-pelote?

Rebrota o comentário a propósito, inclusive, daqueles outros, ficcionistas ou não, a quem faltara espaço e tempo necessários para a conclusão de seu projeto referente à literatura, nenhum deles tendo deixado uma prova, sequer, do talento que demonstravam como teóricos da arte que daria a um Júlio Dantas a versatilidade bem própria de sua época, nada ficando o cronista a dever ao fino teatrólogo de A Ceia dos Cardeais.

O Clube da Madrugada [CM], em Manaus, foi, a nosso ver, a mais eclética forja cultural inspirada pelas mais variadas tendências, com o maior número possível de intelectuais e poetas capazes de se estrear na literatura, como poucos o fizeram. Mas o CM não era só de literatura. Nas artes plásticas tivemos um Afrânio Castro, também poeta, falecido prematuramente antes de publicado. Hanneman Bacelar, muito mais novo que Afrânio, teria a má sorte de vergar ao peso cósmico dos "trópicos tristes", cometendo suicídio. A galáxia madrugada, enfraquecida agora pela dispersão voluntária dos seus componentes, vai-se deste modo resumir-se naqueles raros que ainda restam de um encontro "histórico" de que jamais se tivera notícia.

Algumas outras personagens desse tempo, naquela obscura capital amazonense dos anos 50, teriam ficado também na memória de seus contemporâneos, não exatamente pela autoria de um romance, de
um conto, a exemplo de A Porta-Estandarte, de Aníbal Machado, ou de um soneto-estalo, como podemos ainda mencionar Augusto dos Anjos, com Vandalismo ou Raul de Leoni, com Eugenia, mas, a rigor, no que elas foram dentro do real desempenho cotidiano de suas próprias vidas.

Temos, assim, as figuras lendárias de José Trindade, um dos fundadores do Clube, e a do filósofo Malaquias, de quem já tratamos numa crônica do Tio José (1975). Deixaram, quanto muito, a fama de seus atos públicos notoriamente rebeldes, e frases como esta do pensador da Praça do Ginásio: a senectude é como o sol do entardecer: ilumina, mas não aquece. Ou esta: não me façam vomitar dizendo "meus sonhos". Ninguém é proprietário de sonhos.
O Dr. José Trindade foi mais longe, materializando no ato físico a ideia do fantástico. Na qualidade de auditor de guerra da Polícia Militar do Estado, envergara ele, num certo princípio de noite, a luxuosa farda nobre da Corporação, com espada e tudo, indo sentar-se a uma das mesas do Bar Moderno, ao lado do Cine Polyteama. E ali, erguendo-se apenas para ir ao banheiro, tomou o porre federal mais célebre da província.

Malaquias, não tendo residência fixa, acabou por escolher o toldo de uma lancha-motor, no qual passara a dormir. Ninguém mais soube dele. José Trindade, destituído do cargo de auditor, foi tentar a sorte em Vitória do Espírito Santo, e, quanto a nós, nunca mais tivemos notícias do amigo.

domingo, 16 de novembro de 2014

SERMÃO DO OCO


SERMÃO DO OCO


Antes que o atol cósmico
me roa a medula espectral,
deixai-me ver, Senhor,
os pobres do mundo inteiro
libarem este vinho que libo
morder esta fruta que mordo,
tudo isto, Senhor,
sem precisarem do fogo terrestre
nem do pasto afogado
nas raízes da aurora.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

FRAGMENTO

FRAGMENTO

FRAGMENTO
À tarde e à noite
o poeta está ausente.
Relógio e calendário
marcaram do avesso.
Ele usa a freqüência dos búzios
e capta as notícias que envelheceram
antes da letra e do chumbo.
Percebe, então, que falta um elo
para cada coisa.
Possivelmente indecifrável.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

TUFIC RECEBE COMENDA DE MÉRITO CULTURAL NO ACRE



CONSELHO ESTADUAL DE CULTURA DO ACRE CONCEDE COMENDA DE MÉRITO CULTURAL A QUATRO PERSONALIDADES DA CULTURA ACREANA

O Conselho Estadual de Cultura, no próximo dia 05 de novembro, quarta-feira, Dia Nacional da Cultura, confere comendas de Mérito Cultural, em memória e em vida, a quatro personalidades da cultura acreana. Este ano serão brindados “Em Memória” o cientista e escritor tarauacaense Djalma da Cunha Batista e o escritor e jornalista João Mariano da Silva. Na categoria “Em Vida” será agraciado o Padre italiano André Ficarelli, há anos radicado e prestando serviços inestimáveis ao Acre; o outro agraciado é o poeta senamadureirense Jorge Tufic, com trabalhos reconhecidos dentro e fora do país. A cerimônia de premiação ocorrerá no átrio de entrada do Teatro Plácido de Castro, em Rio Branco, na Av. Getúlio Vargas, nesta quarta-feira DIA 05 DE NOVEMBRO, dia da Cultura, às 18h30min. (Com informações repassadas por Clodomir Monteiro, do Conselho Estadual de Cultura)


BREVE HISTÓRICO DOS AGRACIADOS DA COMENDA MÉRITO CULTURAL CATEGORIA “Em vida” FREI ANDRÉ FICARELLI Frei André Ficarelli é italiano, e pertence a Ordem do Servos de Maria. Ficarelli está no Acre desde 1950. É o arquiteto que projetou a Catedral Nossa Senhora de Nazaré, em Rio Branco, cuja construção teve início em 1948, com inauguração em 1959.

POETA JORGE TUFIC O poeta e jornalista Jorge Tufic é acreano de Sena Madureira, nascido em 13 de agosto de 1930. Tufic é consagrado como um dos melhores e mais importantes poetas de sua geração, tendo exercido um papel imprescindível na literatura amazonense (Clube da Madrugada), cearense e acreana. Em 2012, recebeu o Prêmio Raul Bopp da União Brasileira de Escritores (RJ), pela obra “Quando as noites voavam”. Jorge Tufic pertece às Academias de Letras do Acre, do Amazonas e de Letras e Artes do Nordeste. É ainda autor do Hino do Estado do Amazonas.

 CATEGORIA “Em Memória” JORNALISTA JOÃO MARIANO DA SILVA João Mariano da Silva nasceu em Aracati, estado do Ceará, em 13 de maio de 1897. Chegou ao Acre no início de 1920, estabelecendo-se em Cruzeiro do Sul. Foi professor primário e redator do famoso jornal O Rebate, jornal fundado em 1921, e que veio a ser o de maior circulação do Território, o qual foi editor por 50 anos, desde 1946 (data em que João Mariano o assumiu) até 31 de março de 1972, quando faleceu. João Mariano marcou a história do jornalismo acreano.

CIENTISTA E ESCRITOR DJALMA DA CUNHA BATISTA Djalma da Cunha Batista nasceu em Tarauacá (AC) em 20 de fevereiro de 1916, e faleceu em Manaus, no dia 20 de agosto de 1979. Cientista, pesquisador, escritor, literato, homem de profunda cultura. Formou-se em Medicina pela conceituada Faculdade de Medicina da Bahia, em 1939, tornando-se um dos médicos mais conceituados da região Norte pelas suas pesquisas, entre outras no campo da Tisiologia. Foi presidente por três vezes da Academia Amazonense de Letras e presidente do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Publicou, entre outras, as seguintes obras: Letras da Amazônia (1938); Da Habitalidade na Amazônia (1965); O Complexo da Amazônia (1976); Cartas da Amazônia (1989, póstuma), publicado por Guimarães de Oliveira. Em 1996 foi publicado sobre ele o livro “Djalma Batista: um humanista da Amazônia”. A editora Valer, do Amazonas, reeditou algumas de suas conferências num livro intitulado Amazônia, Cultura e Sociedade (2003), e O Complexo da Amazônia, a mais importante obra de Djalma Batista.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

CLARÃO RETIDO



CLARÃO RETIDO



Nunca será a mesma
a face desta manhã;
tampouco o enxame da água
nas calhas do inverno.
Levíssimos pontos alados,
da mosca ao abutre,
se revezam na tensa geometria
que ameniza o verão.
Deve ser este o ritmo
que amadurece o ouro
e pulveriza o diamante.



quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Os momentos supremos

Os momentos supremos
Jorge Tufic
Nós somos definitivamente autores, consagrados ou não, de uma única obra. Não era sem razão, portanto, que os nossos bisonhos predecessores achavam que Aníbal Teófilo, autor de A Cegonha, já podia morrer depois deste soneto. Fato semelhante acontecera a Júlio Salusse, autor de um outro artefato poético do gênero, intitulado Os Cisnes. E o que seria A Comédia Humana, de Balzac, senão uma grande obra reunindo, numa única saga romanesca, toda a produção literária do famoso estilista de Chat-qui-pelote?

Rebrota o comentário a propósito, inclusive, daqueles outros, ficcionistas ou não, a quem faltara espaço e tempo necessários para a conclusão de seu projeto referente à literatura, nenhum deles tendo deixado uma prova, sequer, do talento que demonstravam como teóricos da arte que daria a um Júlio Dantas a versatilidade bem própria de sua época, nada ficando o cronista a dever ao fino teatrólogo de A Ceia dos Cardeais.

O Clube da Madrugada [CM], em Manaus, foi, a nosso ver, a mais eclética forja cultural inspirada pelas mais variadas tendências, com o maior número possível de intelectuais e poetas capazes de se estrear na literatura, como poucos o fizeram. Mas o CM não era só de literatura. Nas artes plásticas tivemos um Afrânio Castro, também poeta, falecido prematuramente antes de publicado. Hanneman Bacelar, muito mais novo que Afrânio, teria a má sorte de vergar ao peso cósmico dos "trópicos tristes", cometendo suicídio. A galáxia madrugada, enfraquecida agora pela dispersão voluntária dos seus componentes, vai-se deste modo resumir-se naqueles raros que ainda restam de um encontro "histórico" de que jamais se tivera notícia.

Algumas outras personagens desse tempo, naquela obscura capital amazonense dos anos 50, teriam ficado também na memória de seus contemporâneos, não exatamente pela autoria de um romance, de
um conto, a exemplo de A Porta-Estandarte, de Aníbal Machado, ou de um soneto-estalo, como podemos ainda mencionar Augusto dos Anjos, com Vandalismo ou Raul de Leoni, com Eugenia, mas, a rigor, no que elas foram dentro do real desempenho cotidiano de suas próprias vidas.

Temos, assim, as figuras lendárias de José Trindade, um dos fundadores do Clube, e a do filósofo Malaquias, de quem já tratamos numa crônica do Tio José (1975). Deixaram, quanto muito, a fama de seus atos públicos notoriamente rebeldes, e frases como esta do pensador da Praça do Ginásio: a senectude é como o sol do entardecer: ilumina, mas não aquece. Ou esta: não me façam vomitar dizendo "meus sonhos". Ninguém é proprietário de sonhos.
O Dr. José Trindade foi mais longe, materializando no ato físico a ideia do fantástico. Na qualidade de auditor de guerra da Polícia Militar do Estado, envergara ele, num certo princípio de noite, a luxuosa farda nobre da Corporação, com espada e tudo, indo sentar-se a uma das mesas do Bar Moderno, ao lado do Cine Polyteama. E ali, erguendo-se apenas para ir ao banheiro, tomou o porre federal mais célebre da província.

Malaquias, não tendo residência fixa, acabou por escolher o toldo de uma lancha-motor, no qual passara a dormir. Ninguém mais soube dele. José Trindade, destituído do cargo de auditor, foi tentar a sorte em Vitória do Espírito Santo, e, quanto a nós, nunca mais tivemos notícias do amigo.

PAISAGEM GRAVADA





PAISAGEM GRAVADA



Na desbotada fotografia
o rio de minha infância,
o primeiro que vi
a me levar e trazer
entre margens provisórias.
Da janela de casa
a paisagem de sempre
noturna ou clara:
os peixes nas redes de sol
e a barrenta profundidade
onde estrelas se lavam
da queda impossível.



segunda-feira, 13 de outubro de 2014

CARTA DE RAMAYANA DE CHEVALIER

Uma carta de Ramayana de Chevalier


Ramayana de Chevalier, 1958


Rio, 9 de abril de 1967

Meu grandiquerido [Jorge] Tufic



A saudade é como a luz, não morre, todos os dias se renova. Vocês do Clube da Madrugada representam, para mim, um retrocesso no tempo, uma viagem amável ao País da Emilia. Poetas, o são como eu aspiro e sinto: vivos, aluando de vida, tontos de luz como os pássaros livres da nossa terra. Gostaria de viver com vocês. Já me distancio na eclética do destino, procurando rosas no meu deserto, mas amando ao Amazonas com todas as fibras da minha paixão.



Nos meus dias de solitude, diante desta Copacabana sofrida pelos cortes de luz recebo sempre dois pedaços do Clube da Madrugada: Antísthenes e Penafort. Poetas, romancistas, talentos de cepa fina, caboclos na mais larga acepção do vocábulo. Trazem-me notícias, livros, composições espirituais da planície. São vozes da floresta, rumos perdidos da selva nesta flumilândia de arranha-céus.



Fala-me de você, de sua casa admirável debruçada sobre o igarapé como a de Pearl Buck em Hong Kong, talhada em madeira de lei, nossas eternas madeiras amazônicas, magníficas perfeições da nossa arquitetura neolítica, olhando as águas como presentes de Deus as almas sequiosas de bondade. Lembro-me de soneto, “Possível Soneto a Dalva”, obra prima da cinzeladura glebária, notável conquista de um talento que representa a nossa raça, a nossa gente, o nosso futuro misturando sírios, franceses, nórdicos, mestiços no imenso caldeirão da Hiléia, mãe santíssima da nossa desventurada sensibilidade. “O resto é uma cidade e nela o meu orgulho”.

Sim, o teu e o de todos esses Farias, Elsons, Bacelares, Américos, Alencares, Ruas e ensaístas como Aluísio Sampaio, Engrácio, Batista, João Bosco Evangelista, um economista como Saul Benchimol, um Jefferson Péres, artistas ao jeito de Afrânio Castro, Getulio Alho, Álvaro Páscoa, Moacir Andrade, Assayag, um ficcionista como Benjamin Sanches, e o miniaturista admirável que é Óscar Ramos, exilado na Espanha dentro da luz e da cor.



E me recordo dessas noites de luar sobre o rio, onde, quando em Manaus, “o fogo brando como Dalva em meu peito, a consumia”. Tu, como um Alfonsus de Guimarães, que assinaria esse soneto a Dalva, namorando uma lua no céu e outra lua no rio, momento eterno de translumbramento, como as genialidades pictóricas desses artistas manauaras ou transplantados para lá, doces Messias da última mensagem, amando desmesuradamente ao Amazonas, frutos de seus esgalhos pendentes, flores dos seus lagos imaturos, nelumbos dos seus igapós dormentes.



Gostei de teus livros, amei os teus poemas. Silvei como as dobras da espessura, buscando imagens e belezas. Arfei como os fatigados manatins dos canaranais, respirando saudades. O capitalismo afastou-me das rotas distantes, impossibilita-me uma visita à minha terra. Há uma pousada a minha disposição. A casa de Stenio Neves, na praça da Saudade, que me foi oferecida, com o ar condicionado e outras vantagens modernas. Um dia saltarei por ai, de acangatara, ou só com a minha velha tara, rosnando de amor pelo Amazonas, que me atormenta de paixão como um eczema sentimental.


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Anúncio em A Tarde, 1939

Morrerei, Tufic, é o destino. Só me sentirei feliz se o Clube da Madrugada, coletando-me as cinzas, junto com flores de mamorana, descer, uma noite de plenilúnio o rio Negro, despejando-me os espólios na foz, rumo ao mar-oceano... Nessas pedras que andei, hoje asfalto, por essas casas humildes que me convidam ao sonho impossível para os que não poderão jamais compreendê-la.

Vou parar. Meu caminho é como o das lagartas volantes, não marca o chão. Tu, que tens na lama a vibração das palmeiras dos oásis e o fervor pelo destino dos pais, tu que és símbolo do bom filho, do bom irmão e do bom companheiro, tu que és poeta no ar que respiras e na limpidez aos teus momentos interiores, nos quais festejas a Morte, lembra-te do teu velho amigo, do Ramayana que é uma expressão da Amazônia onde quer que se encontre, um traço de Amor entre a terra e o infinitivo, um caboclo doente e triste, cujo sorriso é uma lua à superfície de um lago tranquilo.



Abraço-te a ti e aos nossos irmãos do Clube da Madrugada. Uma tâmara para o teu coração. Um cupuaçu para os nossos paladares boêmios. Meu endereço vai abaixo. Gostaria de entreter com vocês um entendimento de beira de cais. Receber jornais de Manaus, escrever para eles, escutar de longe as novidades da mais bela das cidades do Brasil, junto com a Bahia, porque autênticas.

Como na Roma antiga, direi de toga suspensa e num gesto digno: Vale!


Do teu ex-conde

domingo, 5 de outubro de 2014

CARROSSEL


CARROSSEL

Sei que o mundo navega
ao mesmo ritmo que o sangue
em meus joelhos dourados.
Sei que o dia vai indo
para um lugar talvez
onde juntos
seremos a noite.


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

GRAND FINALE








GRAND FINALE

Bastante esperei para que as vinhas
desabassem seus cofres,
amenas fragrâncias
golpeadas por cada sol
em trânsito
pelo deus que me habita.
Tim-tim portanto
para o fogo visível que me cerca
de mesas
e cadeiras aborrecidas.

sábado, 20 de setembro de 2014

PERFIL DO INSOSSEGO



PERFIL DO INSOSSEGO


Cai a tarde em meu corpo
senilizado pelas cruzes
do encanto vencido.
Cai o sol das frutas cozidas
pelo silêncio do orvalho.
Cai um décimo de meus dias
que levam, contudo,
o alarido das glórias que não tive
para a música dos seixos.



domingo, 14 de setembro de 2014

O CHÃO DA VARANDA



O CHÃO DA VARANDA


Do primeiro esquecimento
guardo a pitanga de chuva
a neblina dos rios amarelos
e a bolsa de prata
onde minha mãe também guardava
a solidão metálica
dos búzios.


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A EUGÉNIO DE ANDRADE


A EUGÉNIO DE ANDRADE

Conter, ou apenas sentir
o que ao peito faz eco
e vem, dobrando esquinas
como se dobram roupas
ao calor das alfazemas.
Quase inaudível, entre ramos alertas,
a voz do aconchego, o doce
rumor que atravessa colinas
mas não desliga o ninho
da mais íntima palha
que descobre o silêncio.
Em ti, poeta, o receio
de não sorver o cálice da manhã
até que o dia torne a ser visto
nas pálpebras de um sonho.


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

(Magiciclo)


(Magiciclo)
Raios de mim.
Sou tantos
que uns me confundem
com o lixo
das galáxias;
outros
com um pé de couve
em pé de guerra.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

MURIFESTO


(Murifesto)
Heterônimos
& heterosignos
versus
signônimos
& antônimos
versus
ver sos

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

POEMAS


(Vaticano)
Paredão sobre o beco
suado nas laterais.
O musgo grava
em seu dorso
a antigüidade
das estrelas.




(Ressaca)
Trapos e convulsões
catástrofes
e perdas.
Ai de nós
com esta brisa
cortando

por dentro
e por fora

domingo, 3 de agosto de 2014

CICLO II


(Ciclo II)
Em cada folha
dobrada do
guardanapo,
pousa qualquer magia
que faz dele
um rosa
prensada.


quarta-feira, 30 de julho de 2014

POEMAS EM GUARDANAPOS DE PAPEL


POEMAS EM GUARDANAPOS DE PAPEL

(Beija-flor)
Um milhão de anos foi preciso,
beija-flor,
para que Deus te criasse.
E como te matam fácil
fácil.




(A jaula)
Tudo parece mudo,
indiferente, kafkeano.
Só eu e minha sombra
agora mesmo intraduzível.
O mais passando
passando.
Roídas se quedam pedras,
janelas, calçadas
e a ponta do
meu láp
is.



(Ciclo I)

Ó nuvem
quantas mijadas pesam

nas tuas levezas.
E quant’água me pesa
no corpo
sem nuvem.



sábado, 26 de julho de 2014

AURA AMARA


AURA AMARA

Amaste o som
do amor
que ali estava
nas letras da canção
e na gorja
dos passarinhos.
Arnaut Daniel.
Ezra Pound te seguira
de Provença
a provença;
e ali estavas
ainda,
nas palavras
e na canção.
Aura amara.
Até hoje
os teus pássaros cantam
na parte
dos violinos.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

DESLAVRA




DESLAVRA


Passei anos e anos a olhar
para as coisas que se destroem.
Muros de pedra,
casas antigas,
alpendres estrangulados
pelo cerco do musgo e das lianas.
Mas nunca pensei que tudo isso
também fosse passando,
devagarinho,
para os donos do lugar.
Nem que o lugar
se tomasse de ruínas;
nem que as ruínas pudessem ser vistas
como um ricto necessário
da paisagem senil: nódoas apenas
do trauma silvestre.
Este som que nos guarda.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O SUBSOLO


O SUBSOLO

Legiões de minúsculos roedores
descobrem meus poemas.
Cevam-se deles.
Uma colônia de tropos
um arsenal de elegias
um supermercado de hai-kais,
dividem agora os cupins
em várias e desconexas
correntes de solidão.
Nenhum manuscrito foi poupado.
Nos restantes da broca
o desenho da fome,
as marcas do escuro,
a doce fúria branca.
Tinta, mofo, papel, palavras
espaço mecânico,
abismos pensados,
metáforas roucas,
danaram-se então para longe,
sob o terror organizado
que liberta os signos cativos.


domingo, 13 de julho de 2014

LITOVERGEL RETIRO


LITOVERGEL RETIRO

(para Maria Guilhermina, escultora)

As árvores de mogno,
a paineira
e a flor do mucunã,
testemunham que a pedra
está grávida, e sonha.
Uma família inteira de pedras
conversa neste bosque.
Algumas jazem, porém,
nem sempre factíveis ao tato
nem ao som que revela
os ângulos internos da ?gura,
a visão de conjunto.
Mas tudo nos contempla
do olhar que nos falta.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

FINADOS



FINADOS



Um sossego molhado
engessa a fratura dos mortos.
Nuvens desgarradas
maceram grinaldas.
E um riacho sepulto leva
de foz a foz
o arrulho das centopéias.


sábado, 5 de julho de 2014

RAÍZES FENÍCIAS DO CORAÇÃO BRASILEIRO

RAÍZES FENÍCIAS DO CORAÇÃO BRASILEIRO

Jorge Tufic*


Descubro numa pasta dos anos 60, um tanto amarelada e rota, as seguintes anotações feitas por mim com o auxílio de fidelíssima maquineta, há muito aposentada pelos computadores: ¨meu bisavô chamava-se Jorge Alauz e mantinha uma casa de Câmbio em Beiruth, capital do Líbano. Sua esposa chamava-se Nahha. Jorge Alauz sofrera um assalto organizado contra seu estabelecimento comercial, ficando reduzido à falência. Após este incidente mudara-se para a cidadezinha litorânea de Batroun. Tinha quatro irmãos: Calil, que exercera até o final de seus dias o cargo de Administrador (espécie de Morgado) de um dos mais importantes distritos de Beiruth; Salim, médico ilustre que, segundo José Daher Bitar, esteve em Manaus e assistira o então Governador do Amazonas Jonathas Pedrosa ao cabo de séria enfermidade, logrando êxito e fama; Amin, que morrera no cargo de Delegado de Polícia em Beiruth, em conseqüência de um edema pulmonar resultante de agressão física; e Nahumm, homem simples e trabalhador. Salim tivera um filho de nome Farid, que fora médico do Rei Fayçal e família.¨
Jorge e Sofia, nossos avós, tiveram três filhos e três filhas nascidos em Batroun.
. Al-Batroun, quarto município do Líbano, segundo estatística de 1945, abrange (ou abrangia naquela data), setenta e cinco localidades. Numa dessas nasceram nossos pais e os pais de nossos pais. Região litorânea, mas como todo o Líbano pertencente à Nova Fenícia.
Dali emigraram os três irmãos da família Jorge (ou Alaúz, já no Brasil Alauzo ou Alaúzo, por força das mutações burocráticas), ou seja, pela ordem do mais velho ao mais novo: José, Estevam e Taufik (depois também modificado para Tufi ou Tufic, tudo por conta de um vezo que até hoje persiste nos Detrans da vida: aqui, por exemplo, eu sou Tufia na carteira de motorista e nada, nem mesmo dezenas de pedidos, conseguem a justa reparação).
José chega ao Brasil em 1900, Estevam em 1904, Tufic em 1908. Da Guerra pela emancipação do Acre aos bombardeios de Hermes da Fonseca, em 1912, os três participaram na defesa do Acre e de Sena Madureira. E com muita honra. Glória essa no entanto obscura, posto que nada sabiam da língua portuguesa, apesar da prática de guerrilha contra os turcos e dos freqüentes combates de rua entre católicos e xiitas.
Ajudou-me nesta pesquisa o meu irmão José Tufi, cuja novela desse antepassado ele divide em blocos, valendo-se apenas da memória ao correr da esferográfica, sem a menor pretensão literária. Além do essencial referente ao desenho de nossa árvore genealógica, vimos assim que, como no Brasil, existe no Líbano a liberdade de culto, predominando as seguintes religiões: Maronita (católicos apostólicos romanos do Oriente); Melkita (católicos apostólicos romanos melkitas); Ortodoxa (cristãos da ortodoxia Oriental); Sunitas e Xiitas (seitas maometanas); Drusos (uma espécie de Ordem Mística muçulmana); que os fenícios de Cartago e outras colônias costumavam deixar inscrições alusivas à sua passagem nos vários continentes, 500 anos antes de Jesus Cristo; várias destas foram encontradas na Paraíba (Brasil), sendo até hoje objeto de estudo nos países mais adiantados do mundo; que a palavra ¨fenícia¨ deriva etimologicamente do grego: pardo, vermelho, tâmara, fogo, destruição, renascimento; que até 1850 a língua falada no Líbano ou Nova Fenícia ainda não era o árabe, e sim o aramaico.
Na planície costeira desse país situa-se Batroun ou Al-Batroun, cidade dos nossos antepassados, terra de nossos pais (este pronome ¨nosso¨, também adjetivo, há de surgir, aqui, talvez na contracena da primeira pessoa com a pessoa do irmão, sempre ao meu lado). A longa viagem começa.
Segundo ele, são os nossos avós paternos Jorge José Alauzo e Sofia Alauzo, genitores de José Jorge Alauzo, Estevam Jorge Alauzo, Tufic Jorge Alauzo (nosso pai), Vitória Alauzo, Marie Alauzo e Hessin Alauzo, entre tios e tias. Avós maternos: Hibrahim Abukora (o homem da touca, em árabe) e Ketbi Awaygen Abukora, genitores de Ashad Awaygen Abukora, Lulu Awaygen Abukora, Faride Awaygen Abukora (nossa mãe) e Futin Awaygen Abukora.
Jorge José Alauzo, de uma tradicional família que lidava com o ramo de tabaco, herda o comércio de seus pais e a essa atividade se dedica até o final de sua existência.
Sofia Alauzo ajuda o marido na indústria de cigarros, charutos, fumo para cachimbo e tâmbak (tabaco para o arquile ou arguilé). Era ajudada nessa tarefa por uma irmã cujo nome se perdera ou apenas não chegara ao nosso conhecimento.
José Jorge Alauzo fora o mais velho dos homens. Profissionalizou-se em tabacaria, marcenaria etc. Filósofo por vocação, participou de algumas sociedades como Conselheiro, mas não conseguiu ficar no Líbano invadido pelo exército turco, viajando para o Brasil em 1900.
Estevam Jorge Alauzo, o segundo filho dos homens, trabalhou e estudou com os turcos durante a juventude, aprendendo seu idioma. Foi torneiro mecânico e administrador comercial. Seguindo o irmão mais velho, emigrou para o Brasil em 1903. Teve existência atribulada, posto que, em 1914, volve à terra natal onde conhece, em Beiruth, sua futura esposa que lhe dá um casal de filhos. Impedido de voltar ao Brasil durante a I Guerra Mundial, fica no Líbano até o ano de 1919, quando retorna sozinho tendo por objetivo trabalhar e, assim, poder trazer a família para a sonhada América (América na época era tudo, desde os EE.UU às últimas barrancas do Acre).
O drama de Estevam se resume numa longa novela inspirada pelo destino. Pois não houve dinheiro que lhe trouxesse a mulher e os filhos para o seu convívio. Ela acabou ficando com os numerários destinados às despesas de viagem, e, finalmente, com as casas do Líbano.
Tufic Jorge Alauzo, o mais novo dos irmãos seguiu esse mesmo caminho, vindo juntar-se a eles no ano de 1908.
Vitória Alauzo foi professora e diretora de importante colégio em Batroun ou Beiruth, aqui fica a dúvida. Morreu solteira, com oitenta anos de idade, jamais trocando sua praia pela praia de ninguém.
Marie Alauzo também foi professora, esta de idiomas, e também morreu solteira sem nunca ter deixado o seu Líbano querido.
Hessin Alauzo era estilista e formada em Administração. Foi a mulher mais bonita de seu tempo. Ela esteve no Brasil em 1919, ficando durante um ano em Sena Madureira, junto aos irmãos José, Estevam e Tufic. Como filha primogênita e na ausência de homem para substituí-la, cabia-lhe a função de orientar a família; daí que, apesar de um noivado no Acre, seu irmão maior, nosso tio José, consegue desmanchar o compromisso matrimonial e fazê-la tomar o caminho de volta.
As três irmãs viveram e morreram solteiras.
Nosso avô materno Hibrahim Abukora era pescador e escafandrista, profissões legadas pelo seu pai e tios. Em 1904 ele esteve no Rio de Janeiro, onde nasceu nossa tia Lulu. Mas ali não se demora, logo regressa ao Líbano. Cercado pelo carinho dos seus, falece de gripe espanhola, uma das pragas da Guerra de 14.
Agora viúva, nossa avó Ketbi reúne seus filhos e vem para o Brasil em 1919. Estão com ela Ashad, já casado e pai de dois filhos e as três irmãs Lulu, Faride e Futin. Cada um deles com as suas lembranças da infância, do salso argento mediterrâneo, das moedas de ouro que os ingleses lançavam naquelas águas verdes e transparentes, logo resgatadas pelos nadadores mirins. A casa de dois andares em que moravam em Batroun, voltada para o mar, também veio com eles como a doce arquitetura de uma saudade comum.
Como já disse, Lulu era carioca de nascença, mas foi levada de volta para o Líbano ainda nos cueiros. Estudou em bons colégios, tentou escrever alguns pequenos romances em árabe, essa mesma língua do nosso primo Gibran Khalil Gibran, reduzindo-se com a idade a uma excelente devoradora de livros, enquanto aplicava o melhor de si na feitura de quibes, alfenins, recheios, caftas, pastéis, massas folhadas etc.
Faride tinha quinze anos quando chegara ao Brasil. Aqui, sob o comando da super-mãe Ketbi, tomara gosto pela culinária, prendas domésticas, medicina caseira. Não me canso de elevar os olhos para um retrato das três irmães, numa postura de época.
Futin, a mais nova, adentrava os onze anos de idade quando chegaram a Manaus. Na capital do Estado do Amazonas, ainda com doze anos completos viria a ser apresentada ao seu futuro marido Nicolau Akel, alfaiate bem sucedido, proprietário da Alfaiataria Poli, cartão postal no cenário urbano daquela cidade.
Ashad, o primogênito do casal Abukora e Ketbi, era um exímio escafandrista. Sonhava ter navios, mergulhar nos pélagos menos freqüentados do mundo, emergir de lá com a alegria dos caçadores de pérolas, trazendo-as no olhar, embora de mãos vazias. Diz-me o Zé meu irmão que este assunto é de um outro bloco.
 
* * *
 
Antes de irmos encontrar os três irmãos que agora, juntos no Acre, acompanham o desenvolvimento do novo território, convém fazer um esclarecimento sobre as duas casas em apreço: Casa da Família Jorge (Beth Jarjura) e Casa da Família Hibrahim ou Awayjan (Beth Brahim), as quais aparecem também como Alauzo (originariamente Alauz) e Abucora (o homem da touca). Trata-se, na verdade, segundo o costume, de simples alcunha, sendo que Alauz (ou seja, furta-cor ou manto de vários matizes) este nasceu por obra do acaso: diz-se que o veterano Jorge, nosso bisavô, se atrasara na visita que fazia, de tempos em tempos, a uma localidade chamada ¨Aldeia dos Rapazes¨, industrial por excelência, para a entrega de encomendas de tabaco, entre outros produtos. Os habitantes da cidade ficaram de vigília, dias após dias, quando, de repente, a carruagem do homem que usava um manto de três cores aponta numa curva da montanha. De longe, ao ser identificado o garboso cocheiro já não teve mais como evitar o epíteto, de resto irônico, festivo e oportuno.
Pois agora ali estão, os descendentes. E em Sena Madureira, município fundado em 1904, três anos depois da chegada de José Jorge, o mais idoso dos irmãos, às conflagradas terras da guerra com a Bolívia. Em pleno domínio dos coronéis de barranco, na qualidade de construtor civil e regatão, enfrentara ele projetos grandiosos como levantar escolas, prefeituras, lojas, residências, barracões etc. Na opinião dos contemporâneos, José Jorge, como sempre fora chamado, tirou do nada a bela princesinha do Iaco. Esgotada essa fase, ele prepara um armazém de seis portas comerciais (negócio de tecidos e armarinho), dando ao mesmo o título de ¨Casa Três Irmãos¨, sociedade que iria perdurar até 1932.
Estevam, convalescendo do trauma causado pela mulher, a quem havia transferido o grosso de suas economias, parece melhorar de saúde.
Tufic Jorge, fortemente submetido ao comando do irmão José, vai a Manaus em busca de uma jovem libanesa para se casar. Encontra a respeitável família Abukora, de sua terrinha, reconhece a Faride, aquela do meio, com apenas dezessete anos de idade, e neste exato dia 26 de abril ambos recebem as alianças da consagração nupcial. Tufic deixava a vida de solteiro aos 34 anos de idade. Sete anos depois, em 1930, nasce o novo Jorge da nova geração; 1932 é a vez do José. Há qualquer coisa de misterioso na repetição destes sobrenome e codinome.
 
* * *
 
Em 1924, Ashad ganha o maior prêmio da loteria federal. Todos moravam numa casa da rua Quintino Bocaiúva, em Manaus, no simpático quarteirão que fica entre a avenida Joaquim Nabuco e a Dr. Almino. As mulheres costuravam e faziam iguarias para vender. Nossa mãe, durante esse período de 1919 a 1923 talvez achasse que a unificação de sua família fosse durar para sempre, mas o evento da sorte grande lhe deixaria uma espécie de vazio jamais preenchido, mormente Ashad, prevendo retornar ao Líbano com D. Ketbi, lhes tenha presenteado com jóias e dinheiro. Antes da partida, no entanto, esta se empenha no casamento das filhas: Lulu casa-se com Simão, Futin com Nicolau, Faride com Tufic Jorge Alaúzo. Simão também era sortudo: chegou a ser premiado com 50 contos pela loteria, fez jus a dois automóveis assinando uma rifa. Entretanto, dado à boêmia e à vida noturna, acabou perdendo até o que não tinha, separou-se da esposa (Lulu, para sobreviver, teve que abrir uma quitanda na rua dos Andradas, esquina da Pedro Botelho).
Nesse entremeio, um verdadeiro romance perfuma as cartas que vinham sendo trocadas por Lulu e tio José, lá pelos idos de 1937 a 39, oportunidade que ela aproveita para visitar Sena Madureira. Ali se casam e passam a viver na rua Purus, a 200 metros de nossa casa, na rua Amazonas. No meu livro de memórias I, ¨A Casa do Tempo¨, esse imóvel ¨aparece¨ anexo à oficina do mestre, onde sempre o via debruçado em sua escrivaninha de mogno, a escrever e reescrever os seus textos em árabe, português, francês, espanhol.
Notícias de Ashad dão conta do tremendo desastre em que redunda a compra de um navio costeiro, aparentemente novo ou reformado, como um revés da sorte. Outras cartas recebidas em Manaus pela família Akel, informam que mãe e filho estão agora em Nova Iorque ou Los Angeles. Ele continua na profissão de escafandrista, gosta do mar, azula e verdeja com as algas, confirma os desafios de Hércules, a validade do sentir humano contra todas as fronteiras.
Tia Futin casou-se com a idade de 12 anos, em 1920. Dessa união com o mestre-alfaiate Nicolau Miguel Akel foram gerados nove filhos: Akel, Catarina, Carmem, Constantino, Marieta, Jorge, Janete, João e Helena. Lulu e Futin navegam para as suas origens cósmicas entre a década 70 e 80 do século XX.
Em janeiro de 1950, casado de novo desde algum tempo, Estevam chega a Manaus enfermo, com enfisema pulmonar. Tem casa própria à rua Lauro Cavalcante, comércio no Mercado Central. Em 1953, já de mudança definitiva para Manaus, tio José vai residir com tia Lulu à rua Miranda Leão, sob cujo teto se entrega a Deus em abril de 1957. Estevam lhe segue o caminho em 1959.
Tufic Jorge Alauz, nosso pai, transpõe os umbrais da eternidade em Manaus, à rua J. G. Araújo, no bairro de Santo Antonio, a 20 de dezembro de 1966. Foi sepultado no cemitério de São João Batista sob o número 67474, quarteirão 17, jazigo perpétuo da família Alauzo, por decreto municipal. (Os blocos manuscritos do Zé começam a ceder para o colóquio e à conferência de alguns fatos que estão mais para hoje do que para o ontem. Ele evita as amargas, como o grande Álvaro Moreira. Peço-lhe então que me dê licença, soa a hora absurda em que devo me referir ao trespasse de nossa mãe Faride, ocorrido no dia 20 de maio de 1988, também em Manaus).
É claro que me faltem palavras. Pois, de certo modo, dona Faride pertencia ao Clube da Madrugada, recebendo em nossa casa e em nossa cozinha modesta os nobres Cavaleiros de todas as Madrugadas do Universo, daí ter feito jus aos mais sinceros elogios, quer em prosa, quer em verso, ou ainda como um clássico modelo para os desenhos do artista plástico José Maciel, surpreendida com a mão na massa. Sobre ela escreveram também o nosso querido amigo Tadeu de Souza e o Dr. Akel Nicolau Akel, seu sobrinho médico.
Um trecho de meu Diário sobre o passamento de Faride, ainda sob o calor e a emoção dessa primeira hora: ¨Nos últimos dias de outubro de 1987, minha mãe foi vítima de uma queda, com fratura da parte superior do fêmur direito. Algumas semanas depois, estes fragmentos de uma dor enorme e secreta, começariam a preencher as breves lacunas deixadas pelo receituário dos médicos e para-médicos.
Em todos os ermos, em todas as dores silenciosas, extinguindo-se à míngua de recursos nos confinamentos hospitalares, busquei, então, um pouco de mim para fiar esse fio de espera e desesperança. E que, afinal, partiu-se com Ela.¨ É melhor não prosseguir, deixando ao grande poeta Alencar e Silva a homenagem que nos traz de volta a Casa do Tempo (título de nosso primeiro livro de memórias):

sexta-feira, 4 de julho de 2014

POEMAS








 I


Amo arrumar palavras. Porque sei
que há traças percorrendo
em rios os papéis.

Coisa difícil é dar. Difícil
como saber se damos quando damos
ou tiramos quando tiramos.

Mas as traças são cegas.
Cega a vontade de morrer
mais cega a de escrever.

Palavras são sangue, mesmo
as que gravadas sem propósito.
E ninguém mais do que as traças
sabe disso.


II


Ouvi um chamado distante,
sem voz. Em seguida a surpresa
de assistir à queda de um ovo
pintado com as cores do arco-íris.

─ Algum anjo brincalhão
Querendo tirar barrigada.

Depois outro ovo e mais outro,
tantos, de tantas cores,
que ao chegar em meu quarto
estava transfigurado. Decerto
não atendi ao chamado da poesia...


III


O poeta vai pela rua.
Ninguém está vendo o poeta
porque o poeta é transparente.

O poeta atravessa a ponte
o poeta desfolha a rosa
o poeta contempla o mar.

Ninguém está vendo o poeta.
Mas duvido que ninguém sinta
a sua presença abstrata.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O PÂNTANO



O PÂNTANO


Por longas aves
mares e travessias,
derrama-se o pântano.
Trabalho de muitos.
Fazendo, escamando
oblívios.



sexta-feira, 27 de junho de 2014

GUEORGUI ALEXÍEV


GUEORGUI ALEXÍEV

Uma só Grande Guerra
bastou
para tantas cicatrizes.
A do rosto começa a cobrir
um pouco abaixo das olheiras.
Os lábios também se reduzem
a um simples golpe
onde falta a costura.
Nos olhos, a estampa
de um quadro terrível.
Águias marinhas conferem
as culpas trucidadas.
E grasnam grasnam
pela infrutífera busca.

domingo, 22 de junho de 2014

FRAGMENTO


FRAGMENTO

À tarde e à noite
o poeta está ausente.
Relógio e calendário
marcaram do avesso.
Ele usa a freqüência dos búzios
e capta as notícias que envelheceram
antes da letra e do chumbo.
Percebe, então, que falta um elo
para cada coisa.
Possivelmente indecifrável.


domingo, 15 de junho de 2014

quarta-feira, 11 de junho de 2014

FACHADAS



FACHADAS


Cornijas arvo/
rescidas.
Caixilhos
pensos.
Pen/
sativas
moráceas
desatrelam
as fundações
da escritura.


domingo, 8 de junho de 2014

TESTAMENTO

(quadro de Beatriz Milhases)



TESTAMENTO


Deixo-te as latas vazias
de um porre sem vinho;
deixo-te o abrigo
das pontes,
as sílabas do musgo,
a fúria de meus sapatos.
Deixo-te ainda
a minha radiografia:
o vão que fui
entre duas costelas.



A GRANDE FORTUNA

ROGEL SAMUEL

Esse testamento deixa tudo: as latas vazias (de um porre), latas sem vinho, latas vazias; deixa a moradia debaixo das pontes, os (fragmentos) de textos escritos no musgo; os sapatos gastos, furiosos de tanto andar; deixa a radiografia das costelas quebradas, o vão, o oco, o nada, a morte.


quarta-feira, 4 de junho de 2014

O CRIME DA RUA NOVE


O CRIME DA RUA NOVE

Punhalada mortal.
Mas só depois de tudo
quando as serpentinas
já faziam trombeta,
foi que a vítima compreendeu o alívio
que santifica o matador.


sábado, 31 de maio de 2014

SEMIÓTICA


SEMIÓTICA

Desenho um girassol,
e o mundo todo
compreende,
mas não aplaude.
Escrevo um girassol,
e o mundo todo aplaude,
mas não compreende.


terça-feira, 27 de maio de 2014

sábado, 24 de maio de 2014

SISTEMA



SISTEMA


O desenho de uma estrela
quantifca o papel
deslumbra o vazio.
A simplicidade
equaciona o absurdo.


domingo, 18 de maio de 2014

RETORNO AOS UMBIGOS

RETORNO



II

A chuva com sol, lá fora,
me faz recordar as pitangas vermelhas,
o barranco erodido
e o boi semanal para abate
às portas do domingo.
Cincoenta anos depois,
a cidade do meu tempo
só tem a mim latejando, estranho
diante das águas correntes,
do porto deserto,
com seus velhos batelões de palha vencida,
cheirando a tabaco.
Um dólmã de mescla, azulado,
veste a solidão dessas margens,
naufraga em meu sangue.


quarta-feira, 14 de maio de 2014

RETORNO AOS UMBIGOS


RETORNO AOS UMBIGOS

I
Do verde ao cinza,
do rio barrento ao ponto de ônibus,
dos campos que mugem
ao inferno que buzina,
das escamas do mandi
aos azulejos do Mercado,
as cidades são ciclos etários
e quarteirões hereditários.
Para cada quatro quarteirões
há um cemitério virtual.
Os descendentes de raça ou tamanco
sustentam os parágrafos da posse,
o sotaque das feiras
e o ronco dos ancestrais.
Em cem anos horizontais,
vão-se quatro ciclos de quatro linhagens,
ascendência, genealogia,
pequenas grandezas humanas,
taras e cercas divisórias.
Contíguo ao bosque da infância
revejo outro bosque, este de cruzes,
lajes rachadas e epitá?os
de mistura com tíbias de assassinos,
vítimas, parentes próximos,
anjinhos e cobradores desaparecidos.