quarta-feira, 24 de agosto de 2016

CLARÃO RETIDO

CLARÃO RETIDO


CLARÃO RETIDO


Nunca será a mesma
a face desta manhã;
tampouco o enxame da água
nas calhas do inverno.
Levíssimos pontos alados,
da mosca ao abutre,
se revezam na tensa geometria
que ameniza o verão.
Deve ser este o ritmo
que amadurece o ouro
e pulveriza o diamante.


quinta-feira, 28 de julho de 2016

DESLAVRA

DESLAVRA


Passei anos e anos a olhar
para as coisas que se destroem.
Muros de pedra,
casas antigas,
alpendres estrangulados
pelo cerco do musgo e das lianas.
Mas nunca pensei que tudo isso
também fosse passando,
devagarinho,
para os donos do lugar.
Nem que o lugar
se tomasse de ruínas;
nem que as ruínas pudessem ser vistas
como um ricto necessário
da paisagem senil: nódoas apenas
do trauma silvestre.
Este som que nos guarda.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

O PÂNTANO

O PÂNTANO
Por longas aves
mares e travessias,
derrama-se o pântano.
Trabalho de muitos.
Fazendo, escamando
oblívios.

terça-feira, 12 de julho de 2016

MEUS 80 ANOS

MEUS 80 ANOS


MEUS 80 ANOS



Há dias, fui surpreendido com um convite do poeta José Telles para ser homenageado no Ideal Clube de Fortaleza, tendo em vista a data de 13 de agosto, quando deveria comemorar os meus oitenta anos de idade. Pensei, então, que fosse uma simples cortesia da Sexta Literária que ocorre todas as semanas no Clube, e não a festa de onde venho, hoje, carregado de tantos presentes que me foram entregues pelos nobres amigos e escritores Lustosa da Costa, Juarez Leitão, João Soares Neto, Régis Frota e tantos outros. Tudo começa pelo Menu à Jorge Tufic,
com belíssimo prefácio de José Telles, Entrada, Guarnição, Prato principal e Sobremesa. Em seguida, ao calor do afeto de João Soares Neto, recebo exemplares do jornal O Estado, e, vejam só! com artigo de rodapé assinado pelo próprio JSN, sob o título JORGE TUFIC, OITENTANOS. E os telefonemas não param: Ministro Ubiratan Aguiar, Lucio Alcântara, Robério Braga, entre muitos outros, inclusive esta CANÇÃO PARA UM RAPAZ DE OITENTA, do grande poeta continental Francisco Carvalho! Oxalá possa, e vou tentar, fazer o envio de toda essa fortuna sentimental e literária aos meus confrades do Brasil e do Exterior.
Ressaltem-se, ainda, o pôster intitulado Vate Fenício, aliás pastor de ovelhas, de Luciano Maia, e a presença de inúmeras autoridades. Horas após este evento, o Chá do Armando, em Manaus, também se reunia com este mesmo propósito, e eu estive ali, numa viagem espiritual sem precedentes, juntando-me aos queridos Armando Andrade de Menezes, Almir Diniz, Zemaria Pinto, Tenório Teles, Banayas, Simão Pessoa, Sérgio Luiz Pereira, Luiz Bacellar, e tantos outros.
Afinal, aqui registro mais um fato inusitado que, de tempos em tempos, acontece em nossas vidas: trata-se da surpresa que nos colhe, assim de repente, e acaba por mudar os nossos hábitos, mas não para sempre. A partir dos noventa os ciclos etários ficam mais na expectativa da morte, e vão, assim, reduzindo as despesas com a festa dos parabéns.
Obrigado, amigos!

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Tosco, o antro da noite





Tosco, o antro da noite, 
em ocre ou madeira fóssil, 
aproxima-se de nós 
em máscara e mito. 

Seus olhos rasgados, 
por arte esquecida rastreiam 
cardumes de lava, 
silenciosos caminhos de chuva. 

O traço oval do conjunto 
é um pássaro fixo, 
antigo e severo. 
A boca é outro enigma 
que também nos devora. 


Jorge Tufic 


Do livro: "Fui eu", Escrituras, 1998, SP 

quinta-feira, 16 de junho de 2016

CARTAGO FUI EU






Canta um pássaro morto sobre o dia
que a muitos outros já se misturou:
algo abaixo dos ramos silencia,
treme a terra na pedra que restou.
Vem de que mares essa nostalgia
que meus ossos fenícios engessou?
De Cartago, talvez, da noite fria
transformada no pássaro que sou.
Esse canto noturno me extenua.
Vem de Cartago, sim; da negra lua
por dono o sol que abrasa, mas festeja.
Esplende a noite em látegos de urtiga.
Brinda-se à morte ao cálice da intriga.
Meu corpo, feito escombros, relampeja.



( Coral das Abelhas)

terça-feira, 14 de junho de 2016

alguns dos "sinos de papel"

alguns dos "sinos de papel"





alguns dos "sinos de papel"





Jorge Tufic








oculto no dom
de não ser ninguém
o grilo é som...



pétalas de mim
cultivo num jarro velho
que já foi jardim



em tantra medito
o saber é uma pedra
a mulher, o seu grito



ah, delicadeza
a mosca, senhora tosca
baila sobre a mesa