terça-feira, 15 de maio de 2018

O SUBSOLO

O SUBSOLO

O SUBSOLO


Jorge Tufic
.
Legiões de minúsculos roedores
descobrem meus poemas.
Cevam-se deles.
Uma colônia de tropos
um arsenal de elegias
um supermercado de haicais,
dividem agora os cupins
em várias e desconexas
correntes de solidão.
.
Nenhum manuscrito foi poupado.
Nos restantes da broca
o desenho da fome,
as marcas do escuro,
a doce fúria branca.
Tinta, mofo, papel, palavras
espaço mecânico,
abismos pensados,
metáforas roucas,
danaram-se então para longe,
sob o terror organizado
que liberta os signos cativos.

(Poema-coral das abelhas, 1999)

terça-feira, 8 de maio de 2018

Panegírico ao acadêmico Jorge Tuffic Alaúzo

Panegírico ao acadêmico Jorge Tuffic Alaúzo


 Luísa Galvão Lessa Karlberg

Cadeira nº 18 da AAL
Jorge Tufic Alaúzo era natural de Sena Madureira/AC, onde nasceu no dia 13 de agosto de 1930. Descendente de uma família de comerciantes árabes, seu pai desenvolveu atividades comerciais nos seringais da região amazônica. Com o declínio da produção de borracha, a família transferiu-se, no início da década de 40, para Manaus, onde Tufic realizou seus primeiros estudos. Exerceu, durante boa parte de sua vida, a atividade de jornalista. Em 1976 foi agraciado com o diploma “O poeta do ano”, prêmio concedido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amazonas, em reconhecimento à sua vasta e intensa atividade literária. Tem seu nome inserido em várias antologias, entre as quais se destacam “A Nova Poesia Brasileira”, organizada em Portugal por Alberto da Costa e Silva, e “A novíssima Poesia Brasileira”, que Walmir Ayala lançou na Livraria São José, no Rio de Janeiro, em 1965.
Foi sócio-fundador da Academia Internacional Pré-Andina de Letras, com sede em Tabatinga, no estado do Amazonas. Fez várias conferências literárias e foi membro efetivo de algumas entidades culturais, tais como: Clube da Madrugada, Academia Amazonense de Letras, União Brasileira de Escritores (Seção do Amazonas), Academia Acreana de Letras (AAL) e Conselho Estadual de Cultura.
Pertenceu à equipe da página artística do Clube da Madrugada, “O Jornal” e do “Jornal da Cultura”, da Fundação Cultura do Amazonas. Colaborou em vários órgãos de imprensa, com especialidade no Suplemento Literário de Minas Gerais. Jorge Tufic é o autor da letra do Hino do Amazonas, contemplado que foi com o primeiro lugar em concurso nacional promovido pelo governador José Lindoso, em 1980.
Por sua longa vivência no Amazonas, é, por isso, considerado um dos poetas mais expressivos da moderna literatura amazonense. Sua estréia literária aconteceu em 1956, com a publicação de Varanda de pássaros. Tufic foi um dos fundadores do Clube da Madrugada, em 1954, um dos mais importantes movimentos literários do Amazonas, “que objetivava a inserção do discurso artístico e do fazer literário amazonense no cenário do Modernismo brasileiro”.
Com o seu falecimento, Jorge Tufic deixa vacante a Cadeira nº 18 da Academia Acreana de Letras, cujo patrono é Couto de Magalhães e, também, da Academia Amazonense de Letras (desde 1969), onde também ocupava a cadeira número 18, do patrono Jonas da Silva.
No Amazonas, ele integrava a União Brasileira de Escritores e o Conselho Estadual de Cultura, tendo sido também “fundador da Fundação de Cultura do Amazonas, que, mais tarde, daria origem à Secretaria Estadual da Cultura”. O Sindicato dos Jornalistas do Amazonas, em 1976, o homenageou com o prêmio “Poeta do Ano”, dado a importância de sua produtividade literária.
Jorge Tufic é autor da letra do Hino do Amazonas, cuja música é de Cláudio Santoro, ao alcançar o primeiro lugar, em concurso nacional, promovido pelo então governador José Lindoso, no ano de 1980. Com a chegada da aposentadoria, afastou-se do funcionalismo público. A partir do início da década de 1990, fixou-se em Fortaleza, dedicando-se exclusivamente à literatura. Jorge Tufic faleceu em São Paulo-SP, quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018, acometido por um câncer no pulmão.
OBRAS
POESIA: Varanda de pássaros, 1956; Pequena antologia madrugada, 1958; Chão sem mácula, 1966; Faturação do ócio, 1974; Cordelim de alfarrábios, 1979; Os Mitos da criação e outros poemas, 1980; Sagapanema, 1981; Oficina de textos, 1982;Poesia reunida, 1987;
Retrato de mãe, 1995; Boléka, a onça invisível do universo, 1995; Os quatro elementos, 1996; A insônia dos grilos, 1998; Sinos de papel, 1998; Quando as noites voavam, 1999;
SONETO: Jorge Tufic, 2000; Dueto para sopro e corda, 2000; Poema-Coral das Abelhas, 2003; Cordelim de Alfarrábios II, 2003.
CONTO: O outro lado do rio das lágrimas, 1976; Os filhos do terremoto, 1976.
ENSAIO: Américo Antony – O Guru da Amazônia, 1978; Os códigos abertos fragmentos), 1978; Existe uma literatura amazonense, 1982; Roteiro da literatura amazonense, 1983; Literatura Amazonense: uma proposta de linguagem, 1986; Curso
CRÔNICA: Tio José, 1976.
MEMÓRIA: A Casa do tempo, 1987
ROMANCE: Um Hóspede Chamado Hansen, 2009
ESTILO ACADÊMICO: Tenório Telles, Editora Valer, ao fazer a apresentação de Varandas de Pássaros”, diz o seguinte: “O discurso poético de Jorge Tufic se desenrola no curso dessas duas margens: de um lado, a margem reflexiva, identificado com a dimensão transcendental da existência, marcada por forte conteúdo existencial. A outra margem do discurso poético de Tufic se fundamenta nas preocupações formais e no caráter experimental de seu processo de criação. Sua produção literária é evidência de sua identificação com o universo, no esforço em criar uma obra identificada com os mitos, anseios e esperanças do homem da Amazônia”. (Tenório Telles, apresentação in Varanda de Pássaros (Valer, 2005)”. Tufic se dedicou à arte de escrever poemas de forma visceral, essencial. Foi o poeta que buscou, com paixão consciente, o caminho que leva à inefável palavra-luz da verdadeira poesia. Autor de poesia fulcral, sendo ao mesmo tempo palavra que se transpira à vista do leitor-criador, que tem a felicidade de se encontrar com a sua leitura, usufruindo desse manancial de sugestões de altíssimo teor poético e humano.
HOMENAGEM DOS PARES DA ACADEMIA ACREANA DE LETRAS: Suba, Jorge Tufic, faça poesia com os anjos, ao lado de Deus Pai, e escreva para nós, no meio das nuvens do céu azul-anil da Amazônia, a Saudade que habita em cada um de nós. A Presidente da AAL declara vacante a cadeira nº 18.
UM POEMA DE JORGE TUFIC:
Uma folha desce
Uma folha desce
tão bela, em minha janela.
O dia escurece.

* Luísa Galvão Lessa Karlberg é presidente da Academia Acreana de Letras – AAL.


Conteúdo e visão geral da poesia de Américo Antony

Conteúdo e visão geral da poesia de Américo Antony

Conteúdo e visão geral da poesia de Américo Antony

Jorge Tufic



“Cromos Amazônicos” é o mais denso, talvez, de todos os livros inéditos de Américo Antony, somente comparável ao seu irmão mais próximo intitulado “Crisóis”, seguido de perto pelo “Grinaldas Selvagens”, “Canções Perdidas e outras dispersas” “A Alma do Silêncio”, entre vários ainda não classificados para uma titulagem definitiva.

Polariza este livro o já nosso familiar acento melancólico do poeta que se busca encontrar, após anos de ausência, com o berço nativo de seus legítimos antepassados e uma profunda nostalgia, possivelmente cósmica, diante de um mundo lacerado pelos equívocos da História.

Confirma-se, no entanto, que ninguém soube, como ele, Américo Antony, desvendar as queixas do verde, os mínimos segredos telúricos da selva desconhecida, ainda hoje, por quantos se aventuram no empenho de conquistá-la. A metáfora do poeta, contudo, transcendentaliza-se, mas nunca se hermetiza. Ou quando se hermetiza, ainda mais clara se torna. Pode-se até dizer que o seu vocabulário afetivo se concentra, quase sempre, em torno de núcleos temáticos na aparência repetitivos; mas isto é ilusório: seu estilo e sua linguagem emanam da simplicidade que rejeita o supérfluo, colando-se deste modo singular ao fluxo natural de sua dicção predileta.

Américo Antony, embora dono de vasto léxico regionalista, não refoge à tradição poética: cita os deuses das mitologias grega e romana, em sinal mais que evidente de que os tempos primeiros de Jurupari cederam, ou cedem, às pressões externas; e que o futuro já deverá ser pensado como um novo sol que está vindo em contrapartida daquele que nos fugira.

A obra inédita de Américo Antony é bastante volumosa, perfazendo um total de 600 ou mais poemas, devidamente selecionada, ou seja, dando-se por temporariamente “excluído” um volume de páginas ainda não classificadas e tituladas, com inúmeros sonetos d’occasion, mais o “Dardos de Fogo” e a confusa miscelânea de poemas e sonetos a que o poeta não chegara a dar os devidos títulos de sátiras e epigramas, uma espécie de variante que discrepa sobremodo da verdadeira saga poética do autor.

Poeta solitário, contando apenas com poucos amigos, dentre eles alguns jovens que seriam, anos depois, fundadores do Clube da Madrugada, Américo Antony, talvez por este motivo, tudo fazia para conservar seus escritos marcados pela gratidão do artista aos raros, porém fiéis, admiradores que em nenhum momento de sua vida deixaram de acompanhá-lo, rendendo-lhe os merecidos tributos.

Daí nossa alegria em descobrir, já desbotados pelo bolor das intempéries, velhos papéis manuscritos pelo mestre; num destes, ainda intacto, uma epígrafe de Alencar e Silva retirada de um artigo sob o título “Clarões da Selva”, com data de março de 1953, no qual o poeta de “Território Noturno” fala sobre a poesia de Américo; e, como parte do livro “Canções Dispersas”, emerge um soneto dedicado a Jorge Tufic, a quem caberia, em 1987, como presidente do Conselho Estadual de Cultura, a iniciativa de publicar seu longo poema amazônico “Conory”.

Prosseguindo na reunião da obra dispersa do famoso “Ermitão da rua Japurá” daí resultara a formação de mais dois tomos da obra antonyana, além das já referidas “Cromos Amazônicos”, “Crisóis” e “Grinaldas Selvagens”. São eles: “Alma do silêncio”, “Dardos de fogo” e a confusa miscelânea de poemas e sonetos a que o poeta não chegara a dar os devidos títulos gerais.

Em “A alma do silêncio”, o poeta como que apura e intensifica a sua ojeriza pelo terrorismo sociopático da urbe moderna ou modernosa; contrapõe-se a ela assumindo uma atitude de suprema indiferença aos valores mundanos em favor do eu espiritual que só se revela ao contato dos elementos primários, como a água e a pedra das cachoeiras, a flor e o cântico soturno das aves nascidas da luz e do mistério que alimenta as raízes do sonho. O mundo do poeta já não é mais o mesmo. Torna-se incompreendido.

Em “Crisóis”, tanto quanto nos “Cromos Amazônicos”, o poeta sente-se à vontade em dar expansão ao estro temático que o liga às nascentes perpétuas do amor telúrico e da fábula racionalista. Mais neste, porém, do que naquele, o vate amazônico “pensa” tanto quanto se inclina e se rende aos encantos da natureza.

Em “Grinaldas Selvagens”, com surpreendentes “aquarelas” como este soneto que ele intitula “O sorriso da montanha”, o símbolo da flor já contrasta com os primeiros movimentos articulados à destruição das florestas. Sintomático o uso do plural quando a floresta, a biota, é una pelo simples fato de constituir-se um todo, mas que, obviamente, formado por segmentos, ou seguimentos orgânicos, partes, enfim, da totalidade, sem cujas partes nada representa. Daí, florestas. Saber, sabença, conhecimento lúcido de pajé. O soneto deste livro sob o título “Contra a destruição da floresta” é um grito, como há outros no texto, cuja mensagem atualiza, pari passu, qualquer oportuníssima vontade para rever e para reler Américo Antony à luz das estrofes que se fizeram (e ainda se fazem) nas várias moradas de Jurupari.

Enfim, tudo neste opus corre por conta de uma incurável paixão pelos motivos da mata amazônica, de um, quem sabe, enigmático deslumbramento estético pelo todo que se junta às partes e das partes que celebram a totalidade inexaurível do próprio mito.

A primeira incursão pela obra de Américo Antony se dera por iniciativa do Conselho Estadual de Cultura, com base na Resolução s/n, DE 1975, que resultara neste ensaio de Jorge Tufic – “Américo Antony – O último cisne” (aqui reproduzido sob o título de “Conteúdo e visão geral da poesia de Américo Antony” – publicado na edição n.º 04, ano I, em julho de 1978, do LIVRORNAL (o livro em jornal).

Fazer o inventário e levantamento do acervo, quer inédito ou édito deste grande poeta amazônico, seria essa, com certeza, a preocupação do colegiado, por mais árduo e tardio que fosse o resgate de mais de 600 manuscritos de sonetos e poemas aleatoriamente reunidos em caixas de papelão, pastas e cadernos deixados por ele.

A inclusão do estudo feito por mim, espécie também de relatório apresentado ao Conselho Estadual de Cultura, tem, portanto, a finalidade maior, 1.º de informar sobre as dificuldades encontradas no decurso da pesquisa destes valiosos documentos, e 2.º acolher o referido trabalho que tem forma mais de relatório da comissão designada pelo CEC, do que propriamente de ensaio crítico sobre a poesia de Américo Antony.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

SONETO

Penso em vós, jubilosas testemunhas
dessa infância ondulada pelo sono.
Passarinhos azuis e a mira exata
da usura e da vileza por seu dono.
Penso  em vós, correntezas abrigando
um sol de barro líquido: a canoa
junto aos funis que, logo, repentinos,
sugam qualquer gigante pela proa.
Penso no meu lendário de alfazemas,
nas chuvas com seus peixes luminosos,
nas contas de meu pai, nos meus sapatos
a caminho de um circo imaginário.
Tudo se gruda aos ossos deste empenho
de esquecer o que sou e donde venho.

JORGE TUFIC

quarta-feira, 21 de março de 2018

SONETO

Muro de folhas, capinzal, varanda
e um menino a chorar pelo seu trem
pousado na vitrine, exposto ao mundo
e ao assédio dos pobres sem vintém.
Noites de insônia, lágrimas, tormentos
e o trem calado e só, frágil brinquedo
mas tão real em sua postura de aço
que ali crescera tanto e dava medo.
Muitos natais passaram com suas luzes,
milhões de trens rolaram, transformados
no desejo impossível de obtê-los.
Vagão de mim, contudo, ora deslizo
sobre os trilhos do acaso. E ainda me bato
em vão, contra este périplo insensato.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Voragem

Voragem


Rostos que nunca vi, jacintos murchos
cujas sonatas frias me tocaram,
estes rostos não quero: eles são breves
no desfile das pálpebras cerradas.
Penso naqueles outros, familiares
rostos de toda a vida. Cataventos
da rua ainda sem nome, alagadiço
porão da infância, arpejos e trigais,
dai-me a ver novamente ou mesmo em sonho,
estes semblantes nunca repetidos,
graves alguns, mas todos inseridos
na memória dos dias voluntários.
Cemitério, talvez, dessas lembranças,
todas, em mim, são rosas e crianças.

domingo, 11 de março de 2018

DO INFANTE AZUL

DO INFANTE AZUL

I

Necessito do rio e da paisagem
que me vira partir quando menino.
Da visão surpreendida ou desse quanto
pode haver em redor do meu destino.
Eram coisas e seres do meu tempo,
partes de mim que a vida, em seu balanço,
foi deixando passar, nuvem sujeita
aos ventos, matéria sujeita ao ranço.
Rubros sóis de verão, colheita breve
de azeitonas e ocasos, também contam.
Soldado entregue ao chumbo dos brinquedos,
ao som, talvez, das águas deste inverno,
quero sentir na pele evanescente
como eu seria agora, antigamente.